sexta-feira, 22 de julho de 2016

Domingos

De repente o café sobra na garrafa.
De repente a música não toca, o filme não passa.
O tempo não passa.
O dia vira noite e a noite...
O domingo vira só uma espera pra segunda.
Segunda-feira. Segunda chance. Segunda vida.
Uma sala de espera vazia, sem cadeiras, sem janelas e sem porta.
Mas não importa, não teria pra onde ir mesmo.
Só se fosse a esmo, a passos lentos e detentos.
Pensei fazer a mala e fugir, mas só fiz amá-la.
Domingos são feitos para se passar a dois.
Um domingo solitário é como uma vitrola emperrada, repetindo o mesmo compasso com notas interrompidas.
Domingo é fim e é começo.
Domingo é um apetrecho, um adereço.
É o endereço da semana.
É quando se emana as angústias da semana passada.
Do passado presente. Do passado da gente.
Domingo é turbulência, e em caso de emergência, máscaras de oxigênio cairão sobre nossas cabeças.
Num domingo à noite, só nos resta mesmo é tocar um tango argentino.

Para Sá

Voou.
Pra além de onde nasce o sol.
Bem pra lá de onde a vista alcança.
Um oceano inteiro de distância.

Mas o que é um Atlântico perto de um amor pacífico?


Voe, minha querida, para até onde sua imaginação chegar.

Desbrave esse mundão. Aprenda. Conheça. Cresça. Descubra. Viva!

Não tenha medo. Não se assuste. Não desista.

É só mais um pedacinho do mundo, a diferença é que eles falam embolado, tomam chá das cinco e andam na contramão.
Na real, se a língua dificultar, apela pra libras.
Fico aqui de coração apertado, mas muito feliz e orgulhoso dessa sua conquista.
Se cuida meu grande bem, ou em inglês, my big ben.
E quando voltar muitos braços estarão abertos para te receber.
É só um bye-bye com sotaque de até logo!

Caixa

Tenho uma caixa fechada que só abre a duas chaves.

Uma chave sempre tive. A outra sempre procurei.

Nunca consegui abrir essa caixa, pois me faltava essa segunda chave.

Gritei. Chorei. Esbravejei. Mas nada adiantava.

Cheguei a desistir de tentar abri-la. Tive medo. Muito medo.

Até que um dia, a outra chave apareceu.

O momento perfeito para abrir a caixa. Desvendar o que tem dentro.

A chave nova encaixou perfeitamente e logo se pôs a girar para abrir.

Girou, girou e girou...

Girou pra todos os lados.

Sutilmente. Carinhosamente. Energicamente. Apaixonadamente.

Mas a caixa não abria.

Seria a chave errada? Não. Era essa a chave certa.

Mas então, qual o problema?

.

E a chave nova tentando, tentando e tentando...

O tempo foi passando e a chave foi se desgastando.

Perdendo a força.

Até que cansou de girar e foi embora.

.

.

.

O problema não era a chave nova e sim a chave antiga.

De tanto tempo sem ser usada, enferrujou.

E agora a caixa volta a ter apenas uma chave.

Impossibilitada de abrir, a caixa chora.